Míldio da videira
O míldio da videira é provocado pelo falso fungo Plasmopora vitícola sendo uma enfermidade endémica presente em todas as regiões vitícolas. Nos anos favoráveis ao seu desenvolvimento a opção de não efectuar tratamentos com oportunidade pode ser responsável por elevados estragos e prejuízos, que podem ser de perda total da produção. Assume expressão variável nas regiões vitivinícolas do Norte de Portugal, mostrando a experiência que na região do Douro ocorre 1 vez em cada 7 anos, tendo um comportamento "suave" quando comparado com a região do Entre Douro e Minho, em que ocorre quase todos os anos. Segundo a ANIPLA (Associação Nacional da Indústria para a Proteção das Plantas), a vinha é a cultura que mais consome pesticidas.
Descrição da doença
O agente casual da doença do míldio da videira, Plasmopora viticola (Berk. Et Curt.) Berl et Toni, é um falso fungo que pertence ao reino Chromista (CABI, 2019). Este oomiceta é um endoparasita obrigatório que se desenvolve intercelularmente formando haustórios intracelularmente para absorção de nutrientes (Gessler e Perazzolli, 2011; Frobel, e Zyprian, 2019). O seu ciclo de vida é constituído por duas fases, a fase sexuada e a fase assexuada. Os esporos sexuados, os oósporos, são originados da fertilização do oogónio pelo anteridio que se formam no final do verão e início do outono sobretudo nas folhas afectadas (Pearson e Goheen, 1988).
A forma sexuada é o modo mais comum de hibernação de P. viticola. Os oósporos que se encontram nas folhas caídas vão sofrer diferenciação durante os meses de inverno. As condições de inverno a que estes estão submetidos, nomeadamente os ciclos de seca e humidade, temperatura, a exposição das folhas, parcialmente ou sempre cobertas, devem ser consideradas (Gessler et al., 2003). Estes oósporos sobrevivem melhor nas camadas superiores de solos mais húmidos (Burruano, 2000).
Estudos demonstraram que os oósporos mesmo em condições óptimas de temperatura (20 a 25 °C) e humidade (>95% R.H.) não germinam antes de janeiro (Burruano, 2000). A água é fundamental para que os oósporos saiam da dormência assim como a temperatura, que deverá ser de pelo menos entre 10°C a 13°C (Amaro et al., 2001; Gessler et al., 2011). A estas temperaturas existe já uma germinação significativa de oósporos, que ocorre a nível do solo, sendo necessário que este esteja molhado e com poças (Agrios, 2005; Amaro et al., 2001). Nestas condições existe a emissão de um filamento através da parede destes esporos (Agrios, 2005). Na extremidade deste surge um esporângio, que tem no seu interior outro tipo de esporos, os zoósporos, que são biflagelados. A produção deste esporângio é feita rapidamente mal haja água suficiente (Pearson e Goheen, 1988). Quando estes esporângios atingem a maturação libertam-se dos filamentos e são transportados pela chuva para as folhas da videira (Reynier, 2005), sendo normalmente referido a necessidade de existir um mínimo de 10 mm de chuva para que a germinação e o transporte destas estruturas para a videira ocorra. Os zoósporos são libertados quando a presença da água rebenta as paredes do esporângio. Estes zoósporos nadam para os estomas, onde se enquistam, desenvolvendo um tubo germinativo que entra nos estomas. É formada uma vesícula subestomatal, que que é onde o micélio tubular se irá expandir para os tecidos subjacentes (Frobel, e Zyprian, 2019; Reynier, 2005). Este processo de contaminação em condições ótimas poderá demorar apenas 90 minutos. Contudo, se os tecidos forem muito jovens têm os estomas quase todos fechados pelo que serão muito pouco sensíveis à infecção.
Por este motivo, após o abrolhamento, as videiras só se tornam suscetíveis quando os pâmpanos têm mais de 10 a 15 cm. Os cachos, contrariamente às folhas, podem ser infetados desde o seu aparecimento. Existem, no entanto, fases de maior sensibilidade, como é o caso da prefloração, floração e alimpa. O pedúnculo e o ráquis são também muito sensíveis no período de maior desenvolvimento do cacho. As condições para ocorrer infeção primária são normalmente referidas como “a regra dos três 10”, sendo assim necessário a existência de 10 cm de comprimento dos pâmpanos, 10mm de precipitação nas últimas 24/48 horas e por último uma temperatura superior ou igual a 10°C (Amaro et al., 2001).
Após a entrada do patogéneo na videira, ocorre a colonização das células surgindo manchas arredondadas e cloróticas, sendo vulgarmente referidas como "manchas de óleo". Quando existem elevados teores de humidade relativa o micélio que se desenvolveu no interior dos tecidos da videira produz esporangióforos que saem pelos estomas e em cujas extremidades são originados novos esporângios, que contêm mais zoósporos. Estes esporos assexuados vão assim disseminar o patogéneo para novos órgãos da videira e/ou outras videiras, ocorrendo desta forma os ciclos secundários da doença. Contudo, se a humidade não for suficiente as células destas manchas cloróticas acabam por necrosar e o desenvolvimento do patogéneo pára.
Para que estas frutificações ocorram é necessária uma humidade relativa elevada, com um ótimo a rondar os 80 a 90%, e que a temperatura seja de cerca de 18 a 22°C. A temperatura ambiente condiciona o período de tempo que decorre desde a entrada de P. viticola nos tecidos da videira até à formação das frutificações, sendo 25°C a temperatura óptima para o ciclo completo ocorrer mais rapidamente. Para a posterior ocorrência das infecções secundárias é também fundamental que existam valores mínimos de humidade, ou água livre, e temperatura. Se temperatura for baixa vai prejudicar não só a germinação dos zoósporos mas também a sua viabilidade. Os zoósporos de P. viticola precisam de temperaturas entre os 17°C e os 25°C para germinarem rapidamente, sendo que a 18 °C estes esporos germinam numa hora. A chuva é sempre mais favorável para a ocorrência de novas contaminações, contudo, desde que exista humectação da folha que permita que os zoósporos nadem para os estomas já podem ocorrer novas infecções. Assim, as infecções secundárias podem verificar-se a valores de pelo menos 98% de humidade relativa e com temperaturas superiores a 13°C (Gessler et al., 2011).
Estes ciclos de doença repetem-se desde que se verifiquem as condições, podendo prolongar-se durante o ciclo vegetativo da videira, sendo que no final do ciclo as folhas afectadas são sobretudo as folhas das netas. Nas folhas mais velhas, como as nervuras são uma barreira ao desenvolvimento do patogénico, surge o designado “míldio mosaico”, onde se vão formar novamente os óosporos, completando-se assim o ciclo de vida de P. viticola.
A gravidade da doença difere de ano para ano, sendo que mesmo na própria vinha o ataque poderá ser heterogéneo consoante a casta e a exposição/localização. É nas zonas húmidas que os prejuízos provocados podem ser mais significativos (Gessler et al., 2011).
Sintomas
Os sintomas que P. viticola provoca na videira variam com o ciclo vegetativo da videira (Agrios, 2005).
Sintomas nas folhas
Nas folhas, o primeiro sintoma a ser observado são manchas cloróticas, mais ou menos circulares, de aspeto translúcido ("manchas de óleo"), indicando que o patogéneo já entrou na planta há alguns dias. O seu tamanho varia de 1 a 3 cm (Reynier, 2005). As manchas de óleo permanecem nas folhas consoante as condições climáticas. As manchas de óleo ganham uma cor acastanhada na face superior que é sinal de que os tecidos estão a necrosar podendo mesmo ocorrer a queda das folhas (Agrios, 2005; Magalhães, 2008).
Caso haja condições de humidade surge na página inferior da folha, na zona correspondente à mancha de óleo a esporulação (esporângiófors e esporângios) de P. viticola, também referida como enfeltrado branco (Amaro et al., 2001). Quando estas manchas estão bem formadas é quando ocorre dispersão do patogéneo. Se o míldio ocorrer nos pecíolos das folhas estas podem necrosar e cair precocemente.
Quando as folhas estão mais envelhecidas e ficam infectadas, o sintoma de míldio é designado por míldio mosaico, aparecendo sob a forma de manchas em mosaico. Apesar de ser um sintoma característico de folhas mais velhas poderá também aparecer em folhas mais novas de castas com alguma resistência ao míldio. Na face inferior da folha formam-se também as frutificações deste patogéneo (Agrios, 2005; Magalhães, 2008).
Sintomas nos pâmpanos
Os sintomas de míldio nos pâmpanos normalmente só ocorrem em anos de grande intensidade da doença. Estes sintomas surgem nos pâmpanos jovens, no período de crescimento, ou nas suas extremidades, aparecendo manchas acastanhadas. Quando se dá este tipo de ataque os pâmpanos alteram o crescimento nas extremidades e estes curvam ficando deformados e de crescimento heterogéneo. No entanto nestes órgãos há um reduzido desenvolvimento das frutificações devido a um reduzido número de estomas e também por estes tecidos serem menos aquosos em relação às folhas (Agrios, 2005, Pearson e Goheen, 1988). Os tecidos infetados acabam por necrosar e os lançamentos a jusante podem dessecar e acabar por morrer. Estas manchas acastanhadas poderão mais tarde, na vara atempada, fendilhar longitudinalmente e produzir danos mais profundos nos tecidos da vara.
Sintomas nos cachos
Os sintomas provocados pelo desenvolvimento do míldio no cacho podem ser variáveis de acordo com o estado fenológico. Quando os pedúnculos das inflorescências ficam infetados, pode ocorrer a necrose completa e o consequente dessecamento dos jovens cachos. Se a infecção ocorrer na fase de floração P. viticola desenvolve-se geralmente nos pedúnculos, podendo também atingir os periantos. A evolução do ataque dá-se lentamente podendo ser observado um necrosar lento e posterior dessecamento. As flores secam e caem podendo esta necrose ocorrer em todo o cacho. Também na fase de alimpa a infecção por P. viticola impede o crescimento dos jovens bagos levando ao seu dessecamento. Contudo, nesta fase os esporângióforos e esporângios já se desenvolvem, ocorrendo o aparecimento de sinal branco-acinzentado. Quando o ataque ocorre nestas fases, a forma das inflorescências e jovens cachos altera-se para uma curvatura em forma de S. O desenvolvimento da doença torna-se mais rápido se a temperatura e humidade forem elevadas (Agrios, 2005, Pearson e Goheen, 1988).
Sintomas nos bagos
A infecção pelo míldio pode também ocorrer nos bagos, contudo, estes com o amadurecimento vão ficando menos suscetíveis. Junto à fase de “grão de ervilha”, e posteriormente, quando o míldio se desenvolve surgem manchas arroxeadas que se transformam em necroses da pelicula e da polpa, surgindo marcas parecidas com o comprimir de dedadas. Os bagos podem ser totalmente invadidos, adquirindo uma cor acastanhada acabando por necrosar e endurecer. Este sintoma é designado por “rot brun”, observando-se nos bagos mais velhos, mas ainda antes do pintor. Quando ocorre este sintoma não há esporangióforos e por isso não se observa enfeltrados brancos. A doença nesta situação pode causar a destruição total dos bagos (Agrios, 2005; Amaro et al., 2001).
Castas mais vulneráveis
Existem castas mais vulneráveis a P. viticola que outras, sendo mais sensíveis as que têm a epiderme das folhas e pelicula dos bagos mais fina. Além da escolha das castas, a escolha do porta-enxerto, garantir solos com uma boa drenagem, um vigor das videiras equilibrado durante o ciclo vegetativo, um sistema de condução adequado e a execução de intervenções em verde são práticas que podem condicionar o desenvolvimento de P. viticola (Magalhães, 2008)
Resumo técnico
Sintomas
- Folhas : Manchas cloróticas, mais ou menos circulares, de aspeto translúcido ("manchas de óleo") ou, em alguns casos, manchas em mosaico;
- Pâmpanos : Nos anos de grande intensidade, surgem manchas acastanhadas;
- Inflorescências e cachos : [...];
Condicões climatéricas favoráveis
- Temperatura média superior a 10ºC nas últimas 24 horas;
- Precipitação acumulada de 10 mm nas últimas 24/48 horas;
- Pâmpanos com tamanho superior a 10 cm.
Prejuízos
Nos anos favoráveis ao seu desenvolvimento a opção de não efectuar tratamentos com oportunidade pode ser responsável por elevados estragos e prejuízos, que podem ser de perda total da produção.
O tratamento correto dos dados meteorológicos e a detecção atempada das infeções primária e secundária, pode permitir um aconselhamento racional do controle e prevenção desta doença, o que se pode traduzir na prática na redução no número de tratamentos aconselhados, contrariando a má prática de realização de tratamentos por calendário.
Um aconselhamento técnico racional que possa permitir a redução de 3 tratamentos na vinha na região do Norte de Portugal, sem perda de qualidade, pode gerar uma poupança direta de recursos avaliada em mais de 21 000 000 Euros (exemplo de 2013), sem contabilizar os impactes no ambiente e saúde pública.
Estratégia SIAPD
Detecção da infecção primária e secundária do míldio, respectivamente com base na regra dos 3 - 10 e produto do tempo de folha humectada vezes a temperatura maior ou igual a 50;
Os alertas gerados na plataforma serão utilizados para envio de circulares de avisos e para consulta direta dos interessados no Portal de Informação Regional do SIAPD.
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[Brevemente]
Ocorrências
A produção de avisos relativos a esta doença é feita através da regra 3-10, aplicada às EMA instaladas nas localizações de referência.
É importante a notificação da data de visualização das primeiras folhas verdes (Estado fenológico E) nas vizinhanças dos pontos de medida onde a previsão é realizada. Esta notificação pode ser feita através do formulário de submissão de fotografias.
Localizações de referência em uso
O sistema de notificações SIAPD é, no caso do míldio da videira, efectuado a cada dia às 07:00 de cada dia, integrando os dados de todas as EMAs de referência em uso, enumeradas abaixo, recolhidos até às 04:00 do mesmo dia. Para além dos alertas automáticos resultantes dos modelos utilizados, o Serviço Nacional de Avisos Agricolas poderá emitir notificações importantes e que são apresentadas na tabela constante na página dos avisos agrícolas.
| Nome | Primeiros lançamentos | Última ocorrência | Gráfico | CSV |
|---|
Últimas notificações
As notificações geridas pelo sistema SIAPD relativas a esta doença podem ser consultadas na correspondente Página dos Avisos Agrícolas.
Referências bibliográficas
Peixoto, C.; Cortez, I.; Morais, R., 2019. Estudo e aplicação de modelos de previsão de doenças da vinha sobre plataformas de IoT. Dissertação de Mestrado. UTAD. http://hdl.handle.net/10348/10199
Amaro, P.A., A.; Mexia, A.; Couto, C.; Rmadas, I.; Garrido, J., Costa, J.; Ribeiro, J. A.; Freitas, J.; Trigueiros, J.; Inglez, M. A.; Ferreira, M. A.; Raposo, M. E., 2001. A Protecção Integrada da Vinha na Região Norte.
Agrios, G.N. 2005. Plant Pathology. 5ªEd. London: Elsevier Academic Press Inc., USA.
Burrano, S. 2000. The life-cycle of Plasmopara viticola, cause of downy mildew of vine. Mycologist 14: 179-182
CABI. 2019. Plasmopara viticola (grapevine downy mildew). Datasheet. Last modified: 22 November 2019. https://www.cabi.org/isc/datasheet/41918
Frobel, S. and Zyprian, E. 2019. Colonization of Different Grapevine Tissues by Plasmopara viticola—A Histological Study. Front. Plant Sci. 10, art. 951
Gessler, C.; Pertot., I. and Perazzolli, M. 2011. Plasmopara viticola: a review of knowledge on downy mildew of grapevine and effective disease management. Phytopathol. Mediterr, 50: 3-44.
Magalhães, N. 2008. Tratado de Viticultura, ed. 1. Espanha. 606.
Pearson, R. C. & Goheen A. C. (1988). Compendium of grape diseases. APS Press, USA, 98 p.
Reynier, A., Manual de viticultura, ed. 6ª. 2005, Paris: Ediciones Mundi-Pensa.
Ocorrências
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