Mosca da azeitona (Bactrocera oleae)
A mosca-da-azeitona, Bactrocera oleae (Rossi), é um inseto pertencente à ordem Diptera e à família Tephritidae. Trata-se da principal praga da oliveira nos países da Bacia do Mediterrâneo, pela importância dos prejuízos, de natureza quantitativa e qualitativa, que pode causar à produção.
Descrição da praga
As fêmeas efetuam as posturas nos frutos e as larvas alimentam-se da polpa à medida que constroem galerias sinuosas. Terminado o desenvolvimento larvar, o inseto pode pupar na azeitona, ou abandonar o fruto e pupar no solo, período após o qual emergirá um adulto que dará início a uma nova geração.
Morfologia
Ao longo do seu desenvolvimento, a mosca-da-azeitona passa por metamorfoses completas, que incluem quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto.
Os ovos são alongados e cilíndricos, com cerca de 0,7 mm de comprimento e 0,2 mm de largura, e apresentam cor esbranquiçada (Lopez-Villalta, 1999).
As larvas são ápodas de forma cilindro-cónica; medem cerca de 1 mm de comprimento, quando recentemente eclodidas, e 7 a 8 mm no fim do desenvolvimento; a sua coloração é branca-amarelada ou violácea, consoante se alimentam de frutos verdes ou maduros (Lopez-Villalta, 1999).
As pupas têm forma elíptica e cor que varia de amarela-ocre a branca-amarelada; medem cerca de 4 a 4,5 mm de comprimento e 2 mm de largura (Lopez-Villalta, 1999).
Os adultos têm 4 a 5 mm de comprimento e 10 a 12 mm de envergadura; o corpo, em geral, é de cor parda-avermelhada; na cabeça destacam-se dois grandes olhos compostos com reflexos violeta-esverdeados e um par de antenas curtas; a região dorsal do tórax é negra com quatro faixas acinzentadas; as asas são hialinas e iridescentes, com nervuras castanhas; o abdómen apresenta duas manchas laterais negras; as fêmeas distinguem-se dos machos pelo facto de o último segmento se prolongar para formar uma bainha protetora do ovipositor (Lopez-Villalta, 1999).
Biologia
A mosca-da-azeitona pode hibernar sob três formas:
no estado de pupa, enterrada no solo, a uma profundidade situada entre 1 e 3 cm (Gonçalves & Torres, 2007);
no estado de ovo, larva ou pupa em frutos que tenham ficado por colher;
no estado adulto abrigada nas árvores e alimentando-se de pólen, néctar e excrementos de pássaros (Tsiropoulos, 1977). Na Terra Quente Transmontana hiberna sob as três formas, embora a mais vantajosa para o inseto pareça ser a última (Gonçalves, 2011).
Os adultos retomam a sua atividade entre inícios de fevereiro e inícios de março, e a partir da segunda quinzena surgem as primeiras fêmeas com ovários desenvolvidos. O número destas cresce até fins de abril/inícios de maio, diminuindo de seguida até se anular. Esta quiescência reprodutiva constitui uma estratégia de sobrevivência, tendo como objetivo prolongar a longevidade da fêmea até ao período em que existam frutos recetivos à postura (Gonçalves, 2011; Torres-Vila et al., 2006).
O início da postura tem lugar a partir da fase de endurecimento do caroço da azeitona, sendo favorecido pela ocorrência de precipitação em inícios/meados do verão (Gonçalves, 2011). Por outro lado, as elevadas temperaturas, que normalmente ocorrem em finais de julho e em agosto, têm forte impacto negativo no inseto ao causarem elevada mortalidade de ovos e larvas jovens, que nas condições da Terra Quente Transmontana pode atingir 100% da população (Gonçalves et al., 2012).
Os adultos da primeira geração observam-se a partir de meados de setembro e a sua curva de voo em geral regista dois picos: o primeiro entre finais de setembro e meados de outubro, e o segundo durante a primeira quinzena de novembro (Gonçalves, 2011). As fêmeas exploram cuidadosamente a estreita janela de oportunidades de que dispõem para se reproduzirem e assegurarem descendência, procurando as condições mais favoráveis para o efeito.
Sintomatologia do ataque
Os frutos atacados pela mosca-da-azeitona apresentam, na região correspondente à postura, uma incisão em forma de V. À medida que vão amadurecendo observam-se, na sua superfície, zonas deprimidas ou de coloração diferente, que correspondem às regiões onde a polpa foi consumida.
Também é possível identificar com facilidade os orifícios de emergência, quer dos adultos, no caso das primeiras gerações, quer das larvas da geração hibernante, que deixam o fruto para pupar no solo. No primeiro caso é ainda possível observar-se o pupário, junto do orifício de saída.
Impacto sócio-económico
Os prejuízos causados pela mosca-da-azeitona variam entre locais, anos e cultivares, e dependem também do destino da produção.
Os prejuízos quantitativos resultam, quer do consumo da polpa pelas larvas, quer da queda prematura dos frutos, devido à alimentação e à movimentação da larva no fruto, cortando vasos condutores de seiva, o que prejudica a maturação do fruto e a sua fixação à árvore.
Os prejuízos qualitativos decorrem, quer da desvalorização comercial dos frutos, em resultado das picadas de postura, particularmente grave no caso da azeitona de mesa, quer da perda de qualidade do azeite obtido dos frutos atacados, em resultado da instalação, nas feridas causadas, de microrganismos como bactérias, leveduras e fungos, responsáveis por alterações dos parâmetros físico-químicos e das características organolépticas do azeite.
Em Portugal, os prejuízos causados por esta praga são variáveis de região para região e de ano para ano. Em algumas regiões, como o Alentejo, o risco existe praticamente todos os anos devido à elevada densidade populacional do inseto, enquanto em Trás-os-Montes o impacto é mais variável.
Resumo técnico
A prevenção da mosca-da-azeitona assenta no uso de modelos epidemiológicos e preditivos, baseados na soma de temperaturas (integral térmico), com o objetivo de disponibilizar uma ferramenta informatizada e automática de suporte aos serviços de avisos para emissão de circulares e alertas aos produtores. Embora existam vários métodos para a determinação de graus-dia, todos são aproximações. Na estratégia SIAPD, utiliza-se o método de Ometto (1981).
Para o efeito, são utilizados dados agrometeorológicos de Estações Meteorológicas Automáticas localizadas na área agrícola de interesse. Para o arranque das contagens, é considerada a dinâmica de voo observada em armadilhas e a rede de observadores biológicos SIAPD, incluindo sistemas de visão automática e armadilhas cromotrópicas com feromona sexual.
Modelo de soma de temperaturas
O modelo, desenvolvido pela Doutora Fátima Gonçalves (CITAB/UTAD), baseia-se nos limiares térmicos de desenvolvimento da mosca da azeitona (Bactrocera oleae) e está calibrado para a Terra Quente Transmontana. Considera-se uma temperatura base de 8,9 °C e uma temperatura máxima de 30 °C, em conjugação com as temperaturas mínimas e máximas diárias. A acumulação térmica inicia-se a 1 de janeiro e é usada para prever os principais eventos fenológicos e janelas de intervenção.
A título de exemplo, os tratamentos dirigidos aos adultos deverão ser considerados quando a acumulação térmica se situa entre 1.837,20 ± 35,82 e 2.045,87 ± 34,30 GD, acumulados desde 1 de janeiro.
| Início do cálculo | Soma de temperaturas | Fase fenológica | Utilização prática |
|---|---|---|---|
| Início do ano | 64,10 ± 13,77 | Início do 1.º voo | Colocação de armadilhas e início da monitorização |
| 1.837,20 ± 35,82 | Início do 2.º voo | Estimativa do risco; abrir janela para tratamento adulticida | |
| 2.045,87 ± 34,30 | Pico do 2.º voo | Aplicação de adulticidas, se indicado por capturas | |
| Início do 2.º voo | 81,58 ± 6,32 | Início da postura (2.ª geração) | Estimativa do risco; eventual aplicação de ovicidas |
| 131,35 ± 6,32 | Primeiras larvas jovens (2.ª geração) | Aplicação de larvicidas | |
| 198,82 ± 6,29 | Larvas desenvolvidas / maturas (2.ª geração) | Avaliação do risco; se necessário, colheita antecipada |
Estratégia SIAPD
- Modelo de previsão e desenvolvimento da mosca-da-azeitona adaptado ao Norte de Portugal, com base no modelo de soma de temperatura acima descrito;
- Utilização das EMAs instaladas na área olivícola da Terra Quente;
- Registo da dispersão da praga através da rede de observadores biológicos do SIAPD;
Galeria de imagens
Submeta as suas fotografias
Pode submeter fotografias de armadilhas, adultos ou sintomas observados no campo para apoio à validação.
Documentos de apoio
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Ferramentas de ajuda
[Brevemente]
Graus-dia acumulados
O cálculo do valor acumulado de graus-dia é feito pelo método de Ometto (1981), considerando as temperaturas basais inferior e superior de desenvolvimento da mosca-da-azeitona, assim como as temperaturas mínima e máxima do dia. O estado atual de cada localização é apresentado de forma agregada na tabela de notificações e ocorrências, evitando duplicação de informação.
Cálculo experimental de integral térmico num intervalo
Esta ferramenta recalcula os graus-dia diretamente a partir dos dados observados do canal de temperatura das EMAs públicas desta automação; serve apenas comparação metodológica e análise técnica.
Notificações e ocorrências
A produção de notificações mySense/SIAPD relativos à praga Mosca-da-Azeitona (Bactrocera oleae) é feita com base no modelo determinado por Fátima Gonçalves e Laura Torres (2011), "The use of the cumulative degree-days to predict olive fly, Bactrocera oleae (Rossi), activity in traditional olive groves from the northeast of Portugal", J Pest Sci 84:187-197, aplicado às EMA instaladas nas localizações de referência. A abordagem combina conhecimento ecológico da praga com modelação térmica, permitindo antecipar com precisão fases críticas do ciclo biológico — como o início do voo, a maturação dos ovos, e o período de maior risco de postura e desenvolvimento larvar.
A validação das contagens pode ser feita submetendo imagens das armadilhas através do formulário de submissão de fotografias.
Localizações de referência em uso
A produção de notificações mySense/SIAPD para a Mosca-da-Azeitona (Bactrocera oleae) é efetuada diariamente, integrando os dados de todas as EMAs de referência em uso, enumeradas abaixo. Para além dos alertas automáticos resultantes dos modelos utilizados, o Serviço Nacional de Avisos Agrícolas e/ou Técnico de Avisos Agrícolas poderão emitir notificações importantes e que são apresentadas na tabela constante na página dos avisos agrícolas.
| Localização | Data | Dia | Acumulado | Início da campanha | Último evento | Mensagem | Gráfico | CSV |
|---|
Últimas notificações
As notificações geridas pelo sistema SIAPD relativas a esta praga podem ser consultadas na correspondente Página dos Avisos Agrícolas.
Referências bibliográficas
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Gonçalves M. F., Rodrigues M. C., Pereira J. A., Thistlewood H., Torres L. M., 2012. Natural mortality of immature stages of Bactrocera oleae (Diptera: Tephritidae) in traditional olive groves from north-eastern Portugal. Biocontrol Sci Techn 22 (7): 837-854.
Gonçalves F., Torres L., 2007. Pupation depth of the olive fruit fly, Bactrocera oleae (Gmelin) and behaviour of the larvae in search of a place to pupate. 3rd European Meeting of the IOBC/WPRS Working Group – Integrated Protection of Olive Crops, Bragança, 10 a 12 de Outubro: 109.
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Lopez-Villalta M. C., 1999. Olive pest and disease management. International Olive Oil Council, Madrid, 207 p.
Torres-Vila L. M., González A. S., Escudero F. P., Valiente E. D., Barrero A. C. A., Galán F. G., García J. F., Caldera E. C., Corbacho F. R., 2006. Population dynamics of Bactrocera oleae (Gmelin) in Extremadura (Spain): seasonal fluctuation in reproductive status and adult size. Bol San Veg Plagas 32: 57-69.
Tsiropoulos G. J., 1977. Reproduction and survival of adult Dacus oleae feeding on pollens and honeydews (Diptera: Tephritidae). Environ Entomol 6: 390–392.
Ocorrências
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